Kinoite lamentável

Testei o Kinoite no VirtualBox do openSUSE Leap 15.6 que está fadado a ser o último com X Window System


Resumo assim meus testes em 14 de agosto: um fracasso.

De partida, alguma coisa causa o travamento da máquina virtual. Precisei tentar a instalação múltiplas vezes e, depois, continuei na queda de braço tentando alterar configurações e interfaces para tentar ver a dimensão do estrago no “desktop moderno”.

De cara, eu já cheguei torcendo o nariz, porque a linguagem de automação do KWin é JavaScript. É isso que estamos fazendo? Saímos do delicado M4 no FVWM em 1996 (prova 1 e prova 2) para mais JavaScript?

Daí fiquei explorando os painéis do KDE para tentar chegar no que faço aqui há mais de uma década graças ao Tavis Ormandy. Não consigo: o Plasma finge que é flexível, mas ele está preso no “copismo” windeiro e macintosheiro de sempre. E eu não migrei para o Linux para lamber Apple e Microsoft, para isso bastaria nem usar Linux.

O Plasma é a única possibilidade no Wayland que permite divisão contextual com a mesma profundidade do FVWM: atividades e desktops virtuais (análogo a desktops virtuais e páginas). A única possibilidade oferecida é aquela que implora para o usuário amar o Windows way of life. Já tentei no passado e já sei como termina.

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KDE 4 após atualização e ajuste nas configurações em novembro de 2011: “cara de Windows”, exatamente a que não consigo evitar, é a única que realmente funciona. Eu já havia migrado do Slackware para o openSUSE

O modo de flutuação do painel também não funciona a contento com diálogos de abrir/salvar do GTK piorado à moda GNOME, porque nossos desenvolvedores desaprenderam a trabalhar com caixas de diálogo e criaram reimplementações pioradas de ideias dos anos 1980 e 1990 que, pelo menos, envolveram P&D.

A janela principal oculta o painel flutuante, mas o modal que deveria ser transiente… não o oculta.

Ou seja, mesmo se fosse para copiar o Windows, a incompetência seria flagrante, porque o ciclo de feedback do lixo instável e patético do Windows 95 não encontra lastro no experimentalismo quase infantil de software comunitário que, além de se prostituir à empresa do chapéu vermelho, é autofágico e vive destruindo tudo para recriações infinitas e imaturas.

Em outras palavras, o polimento visual do Plasma esbarra em inconsistências, engessamentos e desenhos questionáveis que nunca foram submetidos a qualquer escrutínio ou teste com usuários num ambiente controlado e verdadeiramente metódico. Coisa que a Microsoft fez controlando com outras duas piadas com a solidez de um castelo de açúcar: Access e Windows 3.1 (ver exemplo de formulário).

Talvez minha barra seja alta demais, mas para quem continua até hoje colecionando software retrô e polindo instalações do DOSBox e do Basilisk II, o abismo é profundo.

O desktop é um lixo cada vez pior, incluindo os desktops da Apple e da Microsoft, que continuam piorando. O sistema atual da Apple beira o ofensivo diante do refinamento que levou décadas, inclusive deixando milhões reféns de um regime de multitarefa cooperativa que tardou em ser aniquilado e ainda estava firme na primeira metade dos anos 2000.

A Web parece ter sido o ácido que faltava para corroer o pouco de sanidade que havia no desktop.

Não só voltamos à salada da despadronização de fazer inveja ao MS-DOS e ao Amiga, mas também destruímos as soluções nativas que poderiam oferecer algum alento.

Eis o contexto que me faz querer colocar mais um compromisso numa vida suficientemente difícil para escrever um shell e poder usar qualquer ambiente mínimo, com baixa interferência do window manager e dos adereços desavergonhados que andam escrevendo por aí, inclusive com patrocínio que não parece ser acompanhado por dirigismo de qualidade.

Acho que alguns desenvolvedores não usam o próprio software. Não é possível.

Vou ser muito direto: faço melhor com o FVWM e uma pilha de abandonware ou um monte de tranqueira que só roda no terminal e, talvez por isso, sobreviva, embora faça o Lotus 1-2-3 parecer uma utopia em termos de polimento (não por acaso, o mesmo Tavis Ormandy que mencionei anteriormente, foi o protagonista de uma epopeia; mais provas aqui e aqui).

Na verdade, o glorioso Taviso foi mais longe: ele experimentou até o Lotus Agenda.

Cada movimento desses não pode ser encarado como entretenimento ou uma simples aventura nerd, muito menos como saudosismo vazio ou reflexo de um adulto infantil, como uma rebeldia sem causa.

Isso é desespero materializado: é descer no abismo para cruzá-lo em meio à correnteza, porque software obsoleto, mas funcional, ainda que produza legado e seja questionável, pode ser muito melhor do que escassez de opções nativas, ou, pior ainda, opções nativas dignas de pena e, aparentemente, incriticáveis, pois… ninguém liga mesmo, tudo virou Web. E na Web a barra é baixíssima.

Por isso, meu desktop “arcaico” e “velho”, longe da suposta “modernidade”, é mais funcional e leve.

O risco de precisar abandonar uma solução que funciona e de me deparar com um ecossistema inteiro cada vez sob ameaça, pela inviabilização de muito mais código empoeirado do que eu poderia ousar conseguir manter, mesmo que me dedicasse muito, é real.

É por isso tudo que comentei que parei tudo para outro dia para saber se, pelo menos, poderia rodar o Qt Creator e compilar código C++ com Nix no Leap, de forma limpa e elegante.

E eu consegui fazer. Eu poderia ter dormido, mas estava consumido pelo ódio.

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{ pkgs ? import <nixpkgs> {} }:

pkgs.mkShell {
  inputsFrom = [ pkgs.stdenv.cc.cc ];

  packages = with pkgs; [
    cmake
    ninja
    pkg-config

    qt6.qtbase
    qt6.qttools
    qt6.qtwayland
    qtcreator

    gdb
  ];

  shellHook = ''
    qtcreator() {
      QT_XCB_GL_INTEGRATION=none \
      command qtcreator "$@"
    }

    export CMAKE_PREFIX_PATH=$CMAKE_PREFIX_PATH:${pkgs.qt6.qtbase}
    echo "Qt 6 + GCC wrapper pronto."
  '';
}

E eu estou quase parando tudo de novo e tentando fazer uma calculadora, depois uma agenda telefônica, depois um calendário. E se eu continuar assim, talvez consiga fazer algo perto do QuikMenu III, um shareware de 35 dólares (em 1995) que ESPANCA décadas de escrita de código com resultados “vomitativos” em ambientes autofágicos como KDE e GNOME.

/images/posts/quikmenu_mu_mosaico.png
Simulação de ambiente multiusuário com QuikMenu III no DOSBox, com o objetivo de demonstrar o sistema de correio eletrônico interno. Apareceu primeiro na Bolha

E também foi com o mesmo espírito que recordei a magnificência do desenho da SGI Onyx2, já que a promessa do desktop de baixo custo se esvai diante da impossibilidade de escalar com computação distribuída.

O maior legado do Unix estava na transparência à rede, porém, paradoxalmente, a mesma conectividade nos legou saídas piores. Opacas.